O Brasil é marcado por um racismo estrutural, que se exprime sob diferentes formas. Ele opera, em primeiro lugar, no campo das representações sociais: nos programas de televisão é comum ver pessoas afro-brasileiras estigmatizadas, reproduzindo estereótipos sociais que as associam à violência. A naturalização do racismo passa também pela ausência: a ausência de pessoas negras entre os altos escalão da magistratura, dos tribunais de justiça, ou dentro dos cursos de medicina das universidades é raramente questionada e, no entanto, participa na construção do imaginário social sobre o lugar das populações negras no Brasil. Este racismo se exprime igualmente no domínio econômico: as populações negras são as mais vulneráveis socialmente, com salários baixos e empregos precários. Estas condições econômicas as forçam a viver em bairros periféricos, onde a criminalidade e a violência são mais elevadas, o acesso à saúde e à educação é mais complicado.

Este racismo se exprime finalmente no campo das políticas públicas, que não integram suficientemente a problemática da luta contra as discriminações para fazer evoluir as desigualdades estruturais ligadas à cor da pele.Uma das manifestações mais significativas deste racismo estrutural nos últimos anos é a questão da violência, sobretudo violência policial da qual são vítimas as populações negras nas periferias do país.

Apoiado pelo lobby das armas, Jair Bolsonaro chegou ao poder com um discurso punitivista e propondo violência aos seus opositores, designando-os como inimigos. A política de segurança que defende Jair Bolsonaro baseia-se na liberalização do porte de armas de fogo, no endurecimento das penas e na detenção em massa. Esta política de segurança não é nova, mas está longe de ter demonstrado sua eficácia. A sociedade civil denuncia o seu impacto mortífero sobre a população: 21.892 pessoas perderam a vida durante ações policiais entre 2009 e 20161. Os primeiros indicadores publicados em 2019 são os piores em mais de 20 anos. O ano de 2019 revela-se particularmente violento no Estado do Rio de Janeiro: de janeiro a outubro de 2019, o Instituto de Segurança Pública do Estado registou 1546 casos de mortes causadas por agentes do Estado, ou seja, quase cinco mortes por dia causadas pelas forças policiais. Há muito tempo no Brasil, esta violência visa particularmente as populações pobres e negras dos bairros periféricos: 75,4% das pessoas mortas durante intervenções policiais entre 2017 e 2018 são negras1.

As mães e familiares das vítimas destas violências policiais mobilizam-se para que estes crimes não permanecem impunes e não se repitam. Fazem ouvir a sua voz nos meios de comunicação, denunciando o clima de terror que reina nas comunidades e a violência que visa sobretudo os jovens negros. Mobilizam-se para obter justiça para os seus filhos assassinados. Recusam o termo «guerra» utilizado pelas autoridades e, em vez de uma política de militarização, elas defendem políticas públicas que garantam um acesso equitativo aos direitos dos habitantes dos bairros desfavorecidos.

As populações negras e dos bairros periféricos resistem.